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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ash(es) - 4 - 9########


9########

Mais o pin e número de contribuinte. O que esta noite me havia de trazer… A ligar para o apoio a cliente a perguntar como se muda o tarifário de alguém. Com uns simples dados. Há coisas do diabo. Perdida de riso lá digo à menina Margarida Martins (homónima?), que parece ter um qualquer insecto preso na garganta, que vou ligar ao meu amigo para saber o número de contribuinte, sabe, é que nós temos este tipo de relação íntima, perguntamos um ao outro os números de contribuinte e pins dos cartões dos telefones. Não há problema. Já volto a ligar, obrigada.
Que riso.
Se ele me der os dados, ligo e digo que é o telefone do meu namorado que está longe, a trabalhar. E que eu estou a acabar o liceu e os meus pais não me deixam ir viver com ele quando eu for, para o ano, para a Universidade.
Agora já não consigo conter o riso. Tenho de lhe ligar a contar isto.

(...)

Não chegámos a mudar o tarifário.
E de repente, essa sensação familiar. De volta. Como se perfeição se atingisse com o quotidiano de nós. O pin do telemóvel e o número de contribuinte. Eu trato disso. E depois não chegas a dar. E eu não chego a tratar de nada. E no fim do dia, com as crianças na cama e depois da cozinha arrumada, tu tens os pés em cima da mesa de café e lês um livro, de óculos porque agora precisas deles. E eu sento-me ao teu lado a por creme nas pernas e digo que não chegámos a tratar das coisas. E tu abraças-me, deixando cair o livro e dizes que não faz mal. Porque podemos tratar disso amanhã. E eu sei e sinto que o amanhã existe contigo. Que de manhã, estás lá. E me dás um beijo quando sais. E que apareces no meu trabalho para almoçar. E quando eu chego, estás a comer bolachas na cozinha e eu venho carregada de bolachas sem sal ou açúcar senão tu matas-te com colesterol. Mas também não resisto a essa bolacha que tens na mão. Depois chamas-me gorda e eu peço-te ajuda para fazer coisas que sei que não gostas e amuamos os dois, sorrindo.
Estás em mim. E é bom.

(18 de Agosto de 2008)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ash(es) - 3 - Histórias de Encantar


Está escrito algures. No futuro. E tu sabes.
Sempre soubeste.
Como?
Quem és tu? De onde vens? Que presente trazem as tuas mãos? Que profecia falam teus lábios? Para onde vais? Eu vou? Porque me levas?
Leva-me.
Leva-me.
Estou contigo. E eis-me de braços caídos em rendição. Armas expostas e viradas para mim. Frágil. Declarada. Exibida. Revelada.
Olá. Então és tu? Vieste, enfim. Sebastião? Quantos nomes tens? Do nevoeiro vieste… Não viemos todos? Quantos nomes temos? Bem-vindo. Estava à tua espera. Não estaremos todos?
Do marinheiro que numa tarde de sol regresse, à proa de um navio cheio de vontades. Do rei que sai do nevoeiro e traz promessa. Do príncipe que morre de amor se assim for preciso, envenenando a maldição. Do beijo matinal depois de cem anos a dormir lado a lado. De uma rosa dentro de uma redoma, personificando eternidade? De lobos maus que nos arrebatem à tradição e às traições da rotina. De um par para o baile, mesmo com sapatos de fragilidade.
Histórias de encantar ou transposições? Autobiografias ou grilos falantes?
Encantamento de viver.

(15 de Agosto de 2008)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Ash(es) - 1 - Confissão rendida de perdição


Há algum tempo que me tinha lembrado disto. Ontem o meu irmão relembrou-me. E foi o melhor que fez.

Bati de novo no fundo do poço. E para aliviar a pressão dos meus dias, recorro a excessos à noite. Bipolar quase. De dia as tentativas de auto-controlo. De noite a veneração de tentar atingir a nebulosidade reveladora.Hoje, de humor elevado com uma pequena ajuda de 4 comprimidos, o dia passou relativamente tranquilo. Depois do trabalho, um copo com amigos. Cheguei a casa e eis que descubro no armário da casa de banho uma bolsa preta que costumava ter a maquilhagem de emergência para o trabalho no MC. Continha apenas dois ganchos para o cabelo, já meio enferrujados, um elástico, e uma pen-drive também desse tempo já quase irreal. Quase em euforia ponho a pen na entrada USB e descubro Nine Inch Nails. Brutal.

E as minhas descobertas revelam-se de novo. E de novo a vontade de escrever a inspiração trazida e relembrada pelo meu irmão. O que eu ouvia no tempo em que a Alada me acompanhava todos os dias, em que o Lobo ainda não tinha partido para o meio dessa densa floresta onde entrei e cheia de medo fugi. With Teeth. E eis que com garras e dentes me agarro de novo à vida.Todos me dizem para sugar a vida e aproveitar o jogo. Depois da última e derradeira desilusão que me trouxe muitos e bem apreciados momentos de felicidade pura e saudável, o que tenho de fazer é entrar no jogo. E a ele apetece-lhe jogar. Diz que me vai convencer e que sabe o futuro. Vamos ver. Mas se é para jogar, então vamos.

Chamo-lhes Ash(es). De Ash. De cinzas. De ash que se torna cinza. E começo-as hoje.É hora de ir fumar a inspiração.

TV on the Radio. Uma das melhores e mais inspiradas bandas que tive o prazer de ser apresentada. Mais uma vez pela Alada. Love is a Province of the brave. Genial. Wolf like me. Elucidativo…

Voltando ao jogo. Pois que julga que se apaixonou por mim ao primeiro olhar e que sabe que lhe pertenço, demore o que demorar. Diz que o meu jogo é fazer de má e de dura e que vê para além disso…
Eu tinha uma t-shirt verde, um colar vermelho e uma saia branca, rodada, com bordado inglês que me chega a um palmo dos tornozelos. Eu tinha um papel dobrado em 4, com o meu número de telefone e um rebuçado encarnado. Eu tinha um plano. Tinha pensado noutra estratégia. Mas o destorcido destino tinha o roteiro perfeito para nos encruzilhar nessa perfeita escada. Eu desço, determinada e olho para ele. Perfeito. Abro meu mais lindo sorriso de anúncio de pasta de dentes e dou-lhe, papel e rebuçado. Ele subia. E sorriu como se fosse ele próprio o Deus que inventou o acto de sorrir.
E dou-me conta de que sinto mais falta dele do que gosto de admitir. Porque dizem que o Amor nos atinge no âmago e eu fui atingida até ao mais profundo do meu ser. Mas não da primeira vez. Bateu-me com força na quarta ou quinta, quando decidi que havia de ser meu. Quando fui assaltada por essa força mais poderosa que a vida e a morte juntas numa espiral de harmonia, tensão e ritmo. Em mim, fogo e água que se elevam no ar e simultaneamente me puxam para o centro da terra, à velocidade do éter, que sendo etéreo velocidade não tem. E em excesso me confesso.
Porque é um excesso sentir assim, como se fossemos ao mesmo tempo, o condutor, a pista e o carro, sentindo desde as variações do ar, o rasto dos pneus e a adrenalina de estar ao volante em contra-ordenação grave por excesso. De velocidade. De adrenalina. De tensão. De tesão. De amor.

(...)

E hoje me confesso, perdida de rendição.

De quem eu gosto, nem às paredes confesso. E não sei porque não.


(13 de Agosto de 2008)

Ash(es)


Há uns meses que ando a trabalhar num conjunto de textos a que chamei de Ash(es). São sobretudo privados e não publicáveis. Mas alguns posso partilhar. São inspirados em excessos. Em fogo. Nas cinzas.
Têm estado esquecidos numa pasta, à espera de uma dessas noites em que as palavras se fumam e o que fica no ar são neblinas espessas através das quais se vê nada. Mas se descobre tudo.
Tinha saudades destes textos.